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27/03/2025

A venda da Redfin nos Estados Unidos e as Lições para o Mercado Imobiliário Brasileiro (ImobReport)

Uma operação recente do mercado imobiliário americano pode ser fundamental para entendermos os próximos passos do setor no Brasil.

Por Daniel A. Santos

 

Uma operação recente do mercado imobiliário americano pode ser fundamental para entendermos os próximos passos do setor no Brasil. 

A empresa Redfin foi adquirida recentemente pela Rocket Mortgage por US$1,75 bilhões. Apesar da alta cifra para os padrões brasileiros, esse é o mesmo valor do IPO da Redfin na Nasdaq em 2017. O valor total da empresa se manteve, mas a desvalorização para o investidor foi de quase 40% no período. Um investidor que tivesse adquirido $100 de ações da Redfin em 2017 teria apenas $58 na venda da empresa em 2024 devido à forte diluição do papel que teve que emitir mais ações durante o período. 

Apesar de encontrar um fim um pouco triste, a empresa nasceu com um propósito bem ousado. O grande diferencial da Redfin sempre foi sua tentativa de “verticalizar” a experiência de compra e venda de imóveis. Diferente de um marketplace como o Zillow, que conecta compradores e vendedores com corretores independentes, a Redfin contratava seus próprios corretores e oferecia comissões reduzidas, apostando que o ganho de eficiência e a tecnologia compensariam essa diferença de receita.

O problema é que esse modelo exigia uma escalabilidade difícil de alcançar. Corretores assalariados são um custo fixo alto, e o volume de transações precisava crescer constantemente para manter a operação sustentável. Em um mercado imobiliário aquecido, a empresa conseguiu expandir e justificar suas projeções agressivas. Mas, com a alta de juros e a desaceleração das vendas, ficou evidente que os números não fechavam. Além disso, a Redfin também tentou entrar no mercado de iBuying -modelo de negócio em que uma empresa adquire imóveis para reforma e revenda rápida. Essa estratégia já havia sido um desastre para a Zillow, que abandonou o modelo em 2021 após prejuízos bilionários. 

A Redfin persistiu, mas acabou enfrentando os mesmos desafios: margens baixas, alto risco financeiro e pouca flexibilidade em períodos de queda nos preços dos imóveis. Com a deterioração dos resultados financeiros e a crescente pressão do mercado, a Redfin viu seu valor de mercado despencar. No auge, em 2021, a empresa chegou a valer mais de US$7 bilhões. Agora, foi vendida por um valor semelhante ao de 2018, um indicativo claro de que o mercado já não acreditava mais no potencial de crescimento do modelo.

Esse movimento reforça um padrão que temos visto em diversas proptechs: a promessa de revolucionar o setor imobiliário muitas vezes esbarra na realidade de um mercado altamente fragmentado, dependente de interações humanas e com margens menores do que as grandes empresas de tecnologia tradicionalmente buscam.

Entretanto, o insucesso da Redfin deixa algumas lições importantes para as startups imobiliárias e para o mercado de forma geral . O principal aprendizado é que crescimento sem rentabilidade não sustenta um negócio a longo prazo. Empresas que dependem exclusivamente da captação de capital para operar enfrentam grandes riscos quando o cenário econômico muda.

Além disso, outro equívoco é a crença de que uma proposta disruptiva pode superar as limitações estruturais do mercado imobiliário. Modelos que tentam eliminar completamente o papel dos corretores ou mudar drasticamente a estrutura de comissões enfrentam forte resistência e dificuldades na execução.

O terceiro ensinamento do case Redfin é a importância da cautela ao diversificar a sua atuação. A entrada da empresa no ramo de iBuying foi um erro estratégico que agravou seus problemas financeiros. A expansão de um modelo de negócio exige validação cuidadosa, tanto de mercado quanto de infraestrutura antes de escalar.

Sendo assim, em um mercado tradicional e complexo como o setor imobiliário, o melhor caminho para prosperar e promover mudanças eficazes é adotar uma atuação “híbrida”, ou seja, a inovação precisa vir acompanhada de viabilidade econômica e adaptação à realidade do setor. Acredito que empresas que combinam tecnologia com a expertise humana, sem depender exclusivamente de um lado ou de outro, tendem a ter maior resiliência em momentos de crise e oscilações mercadológicas.

A busca por eficiência e tecnologia é essencial, mas a estrutura do mercado ainda impõe limites para mudanças radicais.

Olhando para o futuro, as proptechs que conseguirem equilibrar tecnologia, experiência do cliente e sustentabilidade financeira serão as que realmente terão impacto duradouro no setor. A disrupção do mercado imobiliário não virá apenas de promessas ousadas, mas de modelos que realmente entregam valor de forma sustentável.

 

 

FONTE: IMOBREPORT