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17/11/2015

Bradesco surpreende mercado ao propor aumento de capital

Ao mesmo tempo em que permitiu o aumento de capital, o conselho de administração do banco também aprovou a distribuição de um valor bruto de R$ 4,054 bilhões em juros sobre capital próprio (JCP) a seus acionistas, recursos que serão usados para viabilizar a injeção de capital.

Felipe Marques e Vinícius Pinheiro 

O Bradesco propôs ontem aos acionistas um aumento de capital de R$ 3 bilhões, surpreendendo analistas que acompanham as ações do banco. Segundo especialistas ouvidos pelo Valor, a expectativa era que o banco não precisasse de capital extra, uma vez que a retenção dos seus lucros futuros e o menor crescimento do crédito tenderiam, por si só, a aliviar eventuais pressões sobre o índice de capitalização da instituição nos próximos anos, depois da compra da unidade brasileira do HSBC e da implantação de regras mais rígidas de capital pelo Banco Central.

Ao mesmo tempo em que permitiu o aumento de capital, o conselho de administração do banco também aprovou a distribuição de um valor bruto de R$ 4,054 bilhões em juros sobre capital próprio (JCP) a seus acionistas, recursos que serão usados para viabilizar a injeção de capital.

De acordo com uma fonte a par do assunto, o banco não pretende fazer novas chamadas de capital daqui para frente. Para essa fonte, o objetivo do aumento foi transmitir conservadorismo a investidores e analistas na medida em que os índices de capitalização do Bradesco serão pressionados pela aquisição do HSBC, que ainda precisa ser aprovada, além de terem sentido efeitos da volatilidade de câmbio e juros no terceiro trimestre.

O índice de Basileia do banco, que limita sua capacidade de emprestar, encerrou setembro em 14,46%, com 11,4% de capital principal, aquele de melhor qualidade. Em junho, o banco registrava 16% no índice total e 12,8% de capital principal. "É uma forma de encerrar a discussão levantada pela queda do índice", diz esse interlocutor.

Não é a primeira vez que o Bradesco combina um aumento de capital com a distribuição de JCP. "Historicamente, o banco tem usado essa abordagem para se capitalizar gradualmente, obtendo uma forte taxa de subscrição de cerca de 95%", escrevem os analistas do Brasil Plural em nota a clientes. O banco utilizou essa abordagem em dezembro de 2010, janeiro de 2008 e outubro de 2006. Os analistas do Plural classificaram o aumento como positivo do ponto de vista de capital. 

Em fato relevante, o Bradesco informou que a operação tem o objetivo de reforçar a capitalização do banco, "gerando flexibilidade para posicionamento estratégico perante as oportunidades de mercado" e fortalecer investimentos na ampliação e modernização de instalações.

A capitalização será discutida em assembleia de acionistas marcada para 17 de dezembro, assim como a ratificação da aquisição de 100% do capital do HSBC Brasil. No começo de agosto, o Bradesco anunciou a compra da filial brasileira do HSBC por US$ 5,2 bilhões, algo em torno de R$ 17,6 bilhões pelo câmbio da época.

"É um reforço pós-aquisição do HSBC no Brasil, mas não era algo que estávamos esperando", afirma um analista de uma corretora nacional. Na visão dele, o aumento pode sinalizar também que o banco vê uma menor rentabilidade daqui em diante e, portanto, decidiu fazer um reforço de capital para depender menos da retenção de lucros. Nas contas dele, com o reforço, o índice de Basileia do banco sobe de 14,46% para 14,92%. "Não é também um grande reforço no índice, por isso mesmo acaba sendo uma sinalização estranha", diz.

A queda no índice de Basileia foi um dos grandes temas da divulgação de resultados do banco no terceiro trimestre. Segundo o Bradesco, a forte valorização do dólar no período, que chegou a bater a máxima de R$ 4,195, ajudou a aumentar o tamanho dos ativos ponderados pelo risco do banco, que determinam o índice de Basileia. Já pelo lado dos passivos, a volatilidade impactou negativamente a marcação a mercado de títulos que o banco classifica como disponíveis para venda, ajudando a encolher seu patrimônio. 

Em setembro, o patrimônio líquido caiu 0,84% na comparação com junho, encerrando o mês em R$ 86,23 bilhões.

Na teleconferência com investidores, o banco negou que a rentabilidade impactaria seu nível de capitalização, ponderando que não espera uma queda "pequena ou grande" de lucratividade nos próximos anos, disse Carlos Firetti, diretor do departamento de relações com investidores do banco.

O Bradesco emitirá 164,8 mil novas ações no aumento de capital, ao preço de R$ 19,20 por ação ordinária e de R$ 17,21 por preferencial. A subscrição ocorrerá entre os dias 4 de janeiro e 5 de fevereiro de 2016. Além da compra do HSBC Brasil, também pesam sobre os índices de capitalização do Bradesco a implementação das regras mais rígidas de capital para os bancos, prevista para ser concluída em 2019. Na demonstração de resultados do terceiro trimestre, o banco fez uma simulação em que somou o impacto da aquisição do HSBC e a implantação plena das regras de Basileia 3 em seu capital principal. Nessa conta, os 11,4% registrados no terceiro trimestre cairiam para 9,1%.

 

FONTE: VALOR ECONôMICO