A inflação acima do teto da meta, o desemprego em alta e a taxa de juros no maior patamar desde 2006 resultaram na fuga dos brasileiros da tradicional caderneta poupança — ainda a forma mais comum de economizar dinheiro no Brasil.
No primeiro semestre deste ano, os saques superaram os depósitos em R$ 42,6 bilhões, no maior volume de retiradas dos últimos 21 anos.
A movimentação acertou em cheio o mercado de financiamento imobiliário, que recebe a maior parcela dos ativos aplicados na poupança e já dificulta a concessão de crédito para quem deseja realizar o sonho da casa própria.
Conforme estabelecido pela Resolução 3.932, do BC (Banco Central), 65% de todo recurso depositado na caderneta deve ser destinado para esse fim.
Questionados sobre o impacto das consecutivas fugas recordes de recursos da poupança, especialistas ouvidos pelo R7 são unânimes ao dizer que o fenômeno já afeta o mercado de concessão de crédito imobiliário. O diretor-executivo da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), Luiz Fernando Moura, classifica as retiradas da caderneta como “nocivas” para o mercado de imóveis.
A afirmação dos especialistas já é comprovada pelos dados da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança). O último relatório da entidade, datado do mês de maio, mostra que o montante de financiamentos nos primeiros cinco meses deste ano foram 52,9% menor que o verificado no mesmo período de 2015.
Para Luiz França, presidente da França Participações, consultoria especializada no ramo imobiliário, os saques da poupança interrompem o funcionamento da engrenagem do mercado de financiamento. Ele avalia que a escassez da oferta de crédito é danosa principalmente para os empreendimentos em fase de construção, que aguardam por compradores.
— É fundamental ter crédito para que as pessoas físicas tenham a capacidade de financiar, as incorporadoras recebam esse dinheiro e paguem para os bancos. É muito importante que a gente tenha dinheiro para esse ciclo.
Viver de aluguel é mais vantajoso do que comprar a tão sonhada casa própria - A utilização de recursos da caderneta no mercado imobiliário não significa que o recurso estará indisponível na hora que o poupador optar por sacá-lo no banco.
Baixo rendimento da poupança deixou de atrair novos investidores Thinkstock
Fuga de recursos - Com a situação econômica desfavorável, os brasileiros que buscam por um investimento satisfatório não encontram motivações para manter suas economias na caderneta, que tem rendimento de R$ 6,17% ao ano + TR (Taxa Referencial).
De acordo com o professor da Faculdade de Economia da USP (Universidade de São Paulo) Keyler Rocha, quem olha para o resultado financeiro já migrou para outro fundo e a parcela da população com dificuldades sacou o que tinha aplicado para liquidar suas dívidas.
— Evidentemente, a poupança cai porque o rendimento dela está muito abaixo da inflação. Hoje, os títulos do Tesouro rendem 14,25% [ao ano] e alguns pagam ainda mais.
França defende que são necessários três estímulos para o mercado de mercado de crédito imobiliário crescer: taxas de juros compatíveis, baixo nível de desemprego e um bom marco regulatório.
— No Brasil, nós tivemos esses critérios muito bem estabelecido em 2006. Hoje, o nível de desemprego aumentou, os juros subiram muito, mas continuamos com um marco regulatório ainda bom.
Veja em que aplicar sua grana e ganhar mais do que a poupança - Ainda que a economia se recupere ao longo dos próximos meses, a avaliação do professor de finanças da Fipecafi George André Willrich Sales é de que a poupança seguirá como um “péssimo investimento” em um mercado de juros elevados. Ele explica que com o alto número de poupadores com valores elevados na caderneta a tendência é de que novos saques sejam realizados.
— Existe ainda, aproximadamente, R$ 638 bilhões depositados em poupança. Desse dinheiro, cerca de R$ 330 bilhões são de depositantes com mais de R$ 50 mil, que têm condições de investir em outros ativos de maior rentabilidade.